O relógio marcava cinco da manhã, num tique-taque insuportável que entrava na cabeça de Ruby, assim como uma agulha penetra um pano longe de ser maciço. Olhava o quarto, a tintura das paredes e a cor alva da penteadeira, que embutia nela um espelho em formato de coração, um pouco torto para direita.
O retrato na cabeceira era de uma mulher de longos cabelos dourados, que abraçava uma menina com os mesmos cabelos e olhos repulsantes. Ruby não conhecera sua mãe. Seu pai também não. Mas não tinha retratos de seu pai, o que a tornava distante dele, o considerando como um homem qualquer. Porém, aspirava um dia encontrar sua mãe, e nela reconhecer todos os sentimentos que o retrato lhe proporcionava. Uma certeza Ruby tinha: a menina ao lado de sua mãe no retratro era ela mais jovem.
Ruby não sabia quando nem como viera parar no orfanato. Simplesmente um dia acordara lá, e observava as paredes, a penteadeira e o retrato. A irmã Gorethe dissera-lhe que o retrato era de sua mãe. E sobre sua família, era a única e benevolente coisa que sabia.
Ao coçar os olhos, Ruby escuta as batidas na porta de madeira corroídas. Era irmã Alice.
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo as seis em ponto. Vista-se rapariga, não esqueça das saias passadas que colocamos em seu armário. - dizia ela num tom áspero com uma certa quantidade de simpatia.
Ruby levantou-se, colocou as vestes, e olhara seu reflexo no espelho torto da penteadeira. Com uma escova esmeralda, penteava seus cabelos, alisando-os, para ficarem parecidos com os da mãe. Na gaveta ao lado, pegara uma fita púrpura e fez dela um laço perfeito. Desceu para o café.
A escadaria que levava ao refeitório era grande e cansativa, porém o anseio da fome que transbordava em suas veias era definitivamente maior. Mal esperava para as aulas de latim, espanhol, inglês e matemática básica. Ruby se interessava em aprender.
No final do dia, após o banho diário, Ruby ia ao seu quarto e se olhava na penteadeira de novo. Quando iria sair dali? Ficaria para cá todo o sempre? Ruby não sabia, deveras sabia que ficaria lá um bom tempo.
Enquanto deitava na cama, ela sussurava a música que embalava seus sonhos, todas as noites: " Durma bem, durma bem, que mal não tem. A noite está chegando, o dia indo embora, durma menina, que já é hora". Cantava-a até dormir.
Profunda fora a melodia naquela noite. Ruby não parara de a cantar. A luz a clamava alto, a fazendo sussurrar a melodia agora. E olhando para o retrato, seus olhos caíram estagnados, e seu corpo permaneceu em ócio.
O relógio marcava cinco horas da manhã, o tique-taque não incomodava agora. O quarto com suas paredes e cores, a penteadeira alva não receberam olhares curiosos nessa manhã. Irmã Alice batia a porta:
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo as seis em ponto. Vista-se rapariga, não esqueça as saias. Ruby, anda-lhe!!
Dados trinta minutos, Alice voltara a porta corroída.
- Que passas com tu, rapariga? Hei de chamar a irmã superior, está me escutando Ruby? Está me deixando preoucupada. Ruby, respon..
Bruna adorei o texto!!!você tem futuro!!
ResponderExcluirBruna, o texto é ótimo. Visualizei o mesmo no Artilharia Cultural, e não pude deixar de vir aqui para conhecer outras obras suas. Parabéns pelo trabalho.
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