Um dia ela viu um menino, tocando violão na movimentada rua principal de sua cidade. Esquálido, pálido, trazia o medo encarnado em suas feições e mãos que, desesperadas, encostavam em cada corda do instrumento. Ao seu lado tinha um chapéu de palha virado para cima. Quando alguém tentava dar-lhe dinheiro, ele parava de tocar de imediato e recusava cada centavo oferecido. Ela pensou consigo: porque tal alto era tão relevante ao menino? Ele parecia ser simples para recusar todos os adornos.
- Não, obrigada moça. - dizia ele convicto.
- Obrigado senhor, não precisa. - dizia mais uma vez.
A dúvida foi corroendo a menina por dentro, até que num ato sem pensar, suas pernas a levaram para perto dele. Ao ver a mão da menina próxima ao chapéu, ele parara de tocar. Quando sua voz ansiosa estava pronta para recitar o recuso, ela disse:
- Por que recusas todo dinheiro? Sei que precisa.
Ele não disse nada e voltou a tocar. Ela tirara do bolso agora uma quantia desconhecida de dinheiro e ameaçou colocá-la no chapéu novamente.
- Raios, já viu que não quero. - disse zangado.
- Eu só queria ajudar. Mas já que recusas esta mão amiga que ofereço, irei-me embora. - disse a menina.
- Não vá, por favor! - disse o menino num choro.
- Vai querer o dinheiro agora? - disse ela, zombando-o.
- Quero alguém para conversar. Deixo o chapéu ao lado para chamar a atenção das pessoas. Todas elas são movidas a boa vontade, mas sinto-me apenas sendo a vontade e não sua parte boa. Dão o dinheiro e vão embora, como se o dinheiro bastasse e fosse melhor que uma velha e simpática música e audaciosas palavras trocadas ao vento. - disse o menino, trazendo um sorriso no rosto. - Não há bem que pague a amizade, nem uma conversa boa e destraída.
Ao dizer isso, o menino voltou a tocar. Agora ela o observava sentada ao seu lado. Terminada a canção, ele pergunta à ela:
- Mas, por sinal, onde você mora?
sexta-feira, 30 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Felici...o quê?
Me pediram para escrever sobre felicidade. Disseram-me que escrevo coisas tristes em demasio. Mas a felicidade parece-me tão simples, que a tristeza apresenta-se mais convidativa. Vejo a felicidade em coisas comuns do meu cotidiano, como acordar e ver as pessoas que amo ao meu redor. Uma foto que me faz lembrar de algum momento, meus bichos de estimação ou meus livros alinhados em minha estante também me fazem sentir a felicidade. Dizem que fazes sua própria felicidade e eu acredito friamente nisso. A felicidade que tenho ao viver meus dias comuns, é a mesma que me leva a escrever coisas particularmente melancólicas, frias, feias..seja lá qual for a denominação.
Concordo com o conceito de que todos temos que ser felizes e partilhar isso com o próximo. Apesar de escrever essas coisas, eu consigo perfeitamente dividir sentimentos que considero bons. O sarcasmo autoritário gira em torno da felicidade. Você realmente passa a acreditar naquele velho conceito de que só obtem-se felicidade quando alguma meta é alcançada, ou quando você não vê seu bolso gritar freneticamente. A felicidade não se adquire conquistando uma meta. O que deixaste para trás sim, isso é felicidade. Primeiro para alcança-la, você certamente pensou em coisas felizes do qual o motivou a ter aquela meta. As vezes, quando conseguida, nem é tudo aquilo que você pensava ser. Felicidade obtida através do dinheiro vem de uma opinião essencialmente capitalista. Você pode ter todas as jóias do mundo, porém não ter o coração da moça mais bonita da esquina de sua rua, sendo ela o prol de sua alegria. Portanto eis aqui minha opinião sobre a felicidade: ela é boa, mas sem a tristeza ela certamente não existiria.
Concordo com o conceito de que todos temos que ser felizes e partilhar isso com o próximo. Apesar de escrever essas coisas, eu consigo perfeitamente dividir sentimentos que considero bons. O sarcasmo autoritário gira em torno da felicidade. Você realmente passa a acreditar naquele velho conceito de que só obtem-se felicidade quando alguma meta é alcançada, ou quando você não vê seu bolso gritar freneticamente. A felicidade não se adquire conquistando uma meta. O que deixaste para trás sim, isso é felicidade. Primeiro para alcança-la, você certamente pensou em coisas felizes do qual o motivou a ter aquela meta. As vezes, quando conseguida, nem é tudo aquilo que você pensava ser. Felicidade obtida através do dinheiro vem de uma opinião essencialmente capitalista. Você pode ter todas as jóias do mundo, porém não ter o coração da moça mais bonita da esquina de sua rua, sendo ela o prol de sua alegria. Portanto eis aqui minha opinião sobre a felicidade: ela é boa, mas sem a tristeza ela certamente não existiria.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Linhas Íntimas
Era saudável; mostrava picos de felicidade e tristeza. Motivo não tinha, o drama corroía seu coração. Não sabia muito bem o que queria ser da vida, apenas queria (re)descobrir o mundo e passá-lo adiante em meras linhas desordenadas em seu caderno antigo. Nascera na época errada, dizia sua mãe. Tinha fortes ligações com o passado, embora não tenha o vivido. Criava doenças e as curava, criava decepções e as esquecia na luz da manhã seguinte.
Não gostava das galhofas, nem das maravilhosas histórias sobre querubins. Sua felicidade era encontrar livros e neles grafar seu nome, um nobre jeito áspero de despertar um humilde egoísmo. Põe-os na prateleira, e admira-os como uma das virtudes mais impecáveis do mundo. Por muito não lia-os, mas a certeza de que eram seus dava-lhe todo o sabor de inventar seus heróis e matá-los quando bem entender.
Nunca entendera si mesma, sempre quis que outros a entendessem. A música que tenta seus lábios é a mesma que a leva a sorrir e chorar.
Prosa ou poesia, escrevia os dois. O tapete azul que cobre sua cabeça e a faz sentir-se melhor é o mesmo tapete esquálido que fica em sua sala de estar.
Quem é ela eu não sei, alguém gostaria de apresentar-me?
Não gostava das galhofas, nem das maravilhosas histórias sobre querubins. Sua felicidade era encontrar livros e neles grafar seu nome, um nobre jeito áspero de despertar um humilde egoísmo. Põe-os na prateleira, e admira-os como uma das virtudes mais impecáveis do mundo. Por muito não lia-os, mas a certeza de que eram seus dava-lhe todo o sabor de inventar seus heróis e matá-los quando bem entender.
Nunca entendera si mesma, sempre quis que outros a entendessem. A música que tenta seus lábios é a mesma que a leva a sorrir e chorar.
Prosa ou poesia, escrevia os dois. O tapete azul que cobre sua cabeça e a faz sentir-se melhor é o mesmo tapete esquálido que fica em sua sala de estar.
Quem é ela eu não sei, alguém gostaria de apresentar-me?
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Soneto da Angústia
Angústia divina,
Que queres de mim?
Servi-lhe todo tempo de sina
As coisas não precisam ser assim.
Angústia divina,
Dei-lhe todo meu amor
Fiz de um abraço a rima
De um espinho à flor.
Angúsita divina,
Por que não bate antes de entrar?
Minha porta estava aberta, mas não a te esperar.
Angústia divina,
O que farei agora?
Se hoje triste sou, feliz fui outrora.
Que queres de mim?
Servi-lhe todo tempo de sina
As coisas não precisam ser assim.
Angústia divina,
Dei-lhe todo meu amor
Fiz de um abraço a rima
De um espinho à flor.
Angúsita divina,
Por que não bate antes de entrar?
Minha porta estava aberta, mas não a te esperar.
Angústia divina,
O que farei agora?
Se hoje triste sou, feliz fui outrora.
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