domingo, 19 de dezembro de 2010

Herdeiro Forçoso

Um dia veio-me um homem
Sorridente, prazenteiro, amável.
Perguntou-me sorrateiramente
O que escrevi em meu legado.

Encarando-o respondi,
Que legado nenhum havia aqui
Apenas minhas palavras formadas de um sussurro
Que não valem nem o inteligente, quem dirá o burro.

"O que há em seu legado?"
Insistia o homem feliz
Não há nada que a vida ofereça
Que eu já não fiz.

Desgostosa respondi:
"Meu legado são as palavras
Soltas, confusas, enumeradas
Meu legado é meu coração, nobre passageiro da estação."

"Seu legado triste é"
Repetia o homem na avenida
Enquanto os olhos se abriam
E fechavam a triste janela da vida.

Foi embora resmungando
Me tornei contente, feliz dançando
À marcha do amor odiado
Na avenida jazia o meu legado calado.

Rosa Carioca

Pensem nas crianças
Machucadas assustadas
Pensem nas meninas
Confusas dominadas
Pensem nas mulheres
Sofridas arruinadas
Pensem nos tiros
Como rosas sem cheiro
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa Carioca
A rosa sem pétalas
A rosa mentirosa
Destruída, despedaçada
A rosa baleada
A anti-rosa pacífica
Sem cor nem perfume
Sem rosa sem nada

(Baseado na música "Rosa de Hiroxima" de Vinicius de Moraes)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Cofre - Parte III

- Sabes que fez errado, não? – indagava Amália,
- Sei. O ciúme tocou-me a alma Amália. Todas aquelas jóias dadas por aqueles homens do bordel. – dizia ele raivoso.
- Mas pertenciam a mim, Francisco. Tu nem sabia o que eu ia fazer com as jóias. Eu ia viajar para estudar, Francisco. Depois que perdi tudo, inclusive o seu amor, me encontrei sem saída. Empobreci, adoeci. – dizia Amália, pela primeira vez chorando.
- Pois então, amada Amália. Eu vendi todas aquelas pedras foscas e horríveis para construir a nossa casa. Essa casa, Amália. Essa cadeira onde sentas, o piso que pisas, o ar que respiras. – dizia ele encantado com as próprias palavras.
- A necessidade de amparo fez com que me procurasse de novo, Francisco. Essa história de amor é uma piada. Não restou nada em seu coração, apenas a luxúria e a avareza. Tu nunca será nada Francisco, nada. Não vale o pão que comes. – disse Amália pegando seu sobretudo e seu chapéu aveludado. – Quer saber? Vou-me indo. Prefiro a chuva à suas mentiras!
- Não faça isso comigo, Amália. Não faça isso comigo. Tu não sabes do que sou capaz Amália, não sabes! – disse ele apertando-a pelos braços.
Os gestos e atitudes de Francisco passaram a ser bem rudes. Segurou-lhe os braços, roubou-lhe um beijo e a batia no rosto.
- Tu que não presta, Amália. Recusou o meu amor, recusou a linda casa que fiz para ti e agora rejeita meus beijos. – disse Francisco, apalpando o bolso da calça social, e tirando dele uma arma. – E sabe, amada Amália..és tão linda, perfeita! Poderíamos ser um casal tão lindo se não fosse esse seu orgulho. Mas terá o que merece, amada Amália. – puxou então o gatilho.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Francisco acertou em cheio seu peito esquerdo. Amália não sentia mais suas pernas, seu tronco, seus braços. A casa, o rosto de Francisco e todo o resto foram tornando-se borrões sem nenhum sentido. Fechou os olhos.
Francisco colocou seu corpo dentro do carro e levou-o até sua casa. Despejou o corpo na cama, e trazia nas mãos a faca que pegara em sua cozinha. Aproveitou o furo do tiro, e cortou o resto de seu peito com a faca. Com muito esforço, quebrou-lhe as costelas até que conseguisse pegar seu coração. Olhou-o chorando.
- Desculpe, amada Amália. –disse chorando.
Francisco arrombou o cofre e despejou o coração de Amália nele.
- Se não pode amar-me, não amará mais ninguém. – disse indo embora, cantarolando uma feliz melodia.

O Cofre - Parte II

- Ah, valha-me, Francisco! Lembra-se do meu passado? O que tem ele? E pare de chorar por asneira, trouxe-me aqui para um jantar, sim? Pois então. - disse Amália perturbada com a situação.
- Sim, o jantar. Quase que me esqueço dele. - disse Francisco, enxugando as lágrimas que caíam em sua bochecha e respingavam ao final de seu rosto.
A noite trazia consigo uma demasiada ventania que se concentrava em sopros irritantes e compridos. Isso passou a irritar Amália.
- Pois bem, vejo que a noite nos reservou uma chuva daquelas. Durma em casa, Amália. Tu precisas ver as roupas de cama que comprei para nós, são lindas. - dizia Francisco agora entusiasmado.
- É, vejo que não há outra saída. Mas olhe, não dormiremos na mesma cama. Vou adorar ver as colchas que comprou, mas apenas ver. - retrucou Amália.
- Sim, amada Amália. Entendo que não queria dormir debaixo do teto de meu aposento. Mas deixe-me falar Amália. Se um dia eu errei com você, não foi por querer! Eu juro Amália, nunca quis ter feito aquilo. Não estava sóbrio e..- disse Francisco, sendo interrompido por Amália.
- Essa mesma desculpa de sempre, Francisco? Não há outra que possa me dar? Eu amei-te mais do que qualquer outra coisa. Lembra quando tu adoeceu e eu fiquei lá para cuidar de ti? E de tantas as vezes que resmungou em meus ouvidos e abri meus braços para amparar-te? Tu me trocaste por bordeis, gandaias, raparigas sem classe alguma. - gritava Amália com raiva. - Tu sempre chegava bêbado de suas viradas, eu o colocava em sua cama e partia para minha casa no escuro, no vento. Mas a pior coisa que fizeste, Francisco. foi o episódio do cofre. Só de lembrar, juro-te, minha sede por meter-lhe a mão na fuça é muita.
- Perdão Amália. Eu não vejo outra saída a não ser lamentar. - choramingava Francisco. - E tu, Amália? Como pode referir-se assim às raparigas com quem saí quando terminamos? Sem classe? Faça-me o favor, Amália...todas elas foram suas amigas, companheiras de palco.
- É desse passado que referiu-se, não? Fui sim Francisco, fui prostituta. Se isso o envergonha tanto, por que chamou-me para jantar? Que me esquecesse então! - disse Amália, raivosa. - Mas sabes que logo parei com essa vida quando o conheci, quando eras um homem desamparado e frio, que procurava pelos meus serviços como um cão abandonado!
- Você completou-me, amada Amália. Pude desfrutar da felicidade contigo. - respondeu Francisco, aos prantos.
- Eu também, Francisco. Mas agora vejo o homem que tornou-se: podre de rico e de alma. E conseguiu esse dinheiro todo onde, hein? Diga-me. Quem bancou todo esse luxo? - perguntava Amália.
- O..o co..- gaguejava ele.
- Fale! - gritava Amália.
- O cofre. - respondeu ele aliviado e envergonhado.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Cofre - Parte I

- Olhe bem meu amor..essa casa, essas escadas! É um lugar perfeito para nos amarmos. Os detalhes e acabamentos de gesso, os quadros caros. É a casa dos seus sonhos, não? - dizia Francisco, olhando com ternura para Amália.
- É realmente muito bonita, Francisco. Mas sabes, casa nenhuma me comprará! Se eu não quiser casar com você não há quem me impeça. - dizia Amália, franzindo o cenho.
- Estou apenas lhe apresentando a casa, minha amada Amália. Pode ir embora se quiser, ou pode ficar sua vida inteira aqui. Desde de menino quis casar-me com uma mulher luxuosa, cheia de pérolas despencadas pelo pescoço. Assim como você, Amália. Trouxe enguia para jantarmos. - dizia ele, sorrindo.
As feições de Amália podiam ser comparadas facilmente com as de um anjo. Os cabelos louros e encaracolados, presos numa fita azul-esverdeada,davam um ar de doçura ao seu olhar vibrante, jovial e eterno.
- Só para o jantar Francisco. Um jantar e nada mais! - disse séria. Seu olhar jovial agora tornara-se pequenos, com as pupilas banhadas em abismo.
Francisco servira o jantar. Sorria para ela como jamais sorriu à alguém. Era sua mulher amada, a qual queria casar e ter filhos.
- Sabe Amália, a luz das estrelas me trazem a lembrança de seu olhar. Lembra-se da última vez em que esteve comigo? Contamos as estrelas, Amália. Uma delas parecia o seu olhar. - disse, servindo-a o vinho.
- Lembro-me Francisco. Fora ótimo esse dia, eu jamais poderia esquecer. Mas faz tanto tempo, Francisco. Por que do nada trouxe-me aqui com esse aranzel de piá apaixonado? Casar..faz anos que não nos vemos. - disse ela séria, tentando conter o feixe de felicidade interior.
Francisco não sabia ao certo. Pegou um retrato antigo de Amália e quis casar-se com ela.
- Pouco importa os motivos, amada Amália. Sabes que sempre gostei de ti, e não a deixaria jamais! Durante todos esses anos, meu anjo, eu amei-te. Encontrei-me com outras raparigas sim, mas nenhuma delas tinham a perfeição que tens. Tanto por fora quanto por dentro. Minha amada, aceite-me como seu marido. Por favor. - disse, tirando do bolso um anel de ouro branco, reluzente.
- Não posso Francisco. Achei tudo muito lindo..o jantar, a casa, os talheres. Mas não quero casar-me. Não com você!
- Qual o problema de casar-se comigo, Amália? Eu amo-te tanto. - dizia Francisco sério. Não mostrava nenhum sorriso nos lábios.
- Não gosto-te igual. Sabes disso. - disse ela, ainda mais séria.
- Lembro-me bem de seu passado. Não quero viver tudo novamente. Meu coração não pode mais ser partido quando nunca foi inteiro.- lágrimas agora escorriam pela feição de Francisco.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mortandade Egoísta

Ontem, cerca de oito horas da noite encontraram o Dr. Simão
Jogado por entre os sofás de couro.
Trazia o paletó sujo de sangue jogado ao seu lado
Em sua blusa social um grito de dor melancólico.
Sua alma gritava-lhe uma liberdade indescritível
Não podendo ser medida por mentira qualquer!
Se um dia houve honestidade, esse dia nunca existiu.
Mataram a pessoa errada, olhe que pena.
Dr. Simão agora passava pela antena parabólica da televisão.
Dr. Simão, um homem tão bacana!
Como fizeram isso com Dr. Simão?
Olhe você que pena, quem fez isso não vale um tostão.
Andava triste e sozinho
Dr. Simão precisava de carinho.
O tiro estreito e mirado, mata.
Queria ter dito ao Dr. Simão
Como a vida é ingrata!
Olhe você que pena, que tamanha ingratidão.
Dr. Simão foi embora, sem antes dar explicação.
"Explicação nenhuma requer, não julgue-me assim!"
Dizia o assassino, olhando para mim.
Olhe que pena, que pena.
Dr. Simão se matou
Nem para dar adeus ele voltou.
Realmente uma pena, uma pena.

sábado, 2 de outubro de 2010

Indagações Viventes

Perguntam-me frequentemente:
- De onde vem essas palavras?
Digo-lhes friamente:
- Também não sei!

Perguntam-me as vezes:
- O que te faz escrever?
Digo-lhes tristemente:
- Também não sei!

Perguntam-me um pouco:
- Vai querer ser escritora?
Digo-lhes sorridente:
- Também não sei!

Nunca me perguntam
Por que nasci assim
Se metade de mim navega
E a outra se perde em mim.

Sempre me pergunto
Se para sempre assim viverei:
Tecendo sonhos e costurando destinos
Que eu mesma inventarei

Nunca me pergunte sobre a vida,
Que dela nada sei!
Se souber algum dia
Do caixão vou levantar, e contar-los-hei.

sábado, 18 de setembro de 2010

O Último Embarque

"- Informo-lhes que estamos caindo, estamos caindo senhores passageiros. Atenção, isso não é um treinamento! Turbulência alta, repito, turbulência alta! - dizia o Amor.
- Não estamos em um avião..- dizia, num tom áspero, a Realidade - É um coração batendo, idiota. E nem está tão rápido assim.
- Coração?
- Por aqui - disse a Realidade, adentrando mais o coração que batia vivo, 'turbulenciando'."


Eu não tenho muito a dizer sobre o amor. As pessoas das quais amei intensamente foram apenas frutos da minha imaginação. E uma vez tornadas reais não eram do jeito com que eu imaginava. O fato resume-se à isso: amor de menos, para pessoas demais. Tão complicado e sagaz é o amor, mal cabe no peito. O amor tornou-se casual, como os folhetins de jornais antigos. Pessoas o leem, riem não entendendo nada e depois o jogam na lixeira. Comentam o fato com alguns, aborrecem-se com selecionados casos, mas no fim é sempre deixado de lado. Folhetins de amor, Oh! Que ironia.

"- Tem certeza que é o coração certo? - dizia o Amor, desconfiado.
- Sou a Realidade. Se não eu, quem te falaria a mais pura verdade? - dizia a Realidade, apertando forte a mão do Amor.
- Onde fica minha cadeira? - perguntava o Amor. - Hein? Hein?
- No fundo do coração.
- Terceira classe? Mas eu paguei pela primeira classe, isso é uma calúnia, Realidade. - choramingava o Amor.
- Ninguém te quer. Não há dinheiro que te compre! Se não eu, quem te falaria a mais pura verdade? - repetia a Realidade."


Dizem que o verdadeiro amor é apenas uma vez na vida.

"O Amor embarcava na terceira classe do coração. Apertava os cintos e respirava ofegante.
TUM, TUM, TUM."


Um dia ouvi um coração bater enquanto observava o céu escuro e de poucas estrelas, deitada em uma rede. Nem se dava ao prazer de bater mais rápido devido a minha presença. Amei-o como ninguém jamais amou-o naquela noite. Meu coração batia rápido, quase o dobro do dele.

" O amor olhou para o lado. Avistou a Felicidade sentada em sua frente.
- O que fazes aqui Felicidade? Era para estares no topo do coração!
- A Realidade me embarcou aqui. - respondia a Felicidade.
Olhou com mais atenção a terceira classe. Alegria, Animação, Felicidade..até o Amor. Todos no mesmo tipo de embarque.
- Quem está na primeira classe? - perguntava o Amor a Felicidade.
- Ira, Tristeza e Ilusão. A Realidade fica mais tempo aqui do que lá, mas hoje dormirá por aqueles cantos. - Respondia a Felicidade, sonolenta que só.
O Amor entristeceu-se. Logo foi levado ao sono, ao esquecimento. - ' Ninguém me quer aqui'- pensava. Acabou envelhecendo, adoecendo. Queria outro coração.
- Não se pode mudar de coração, Amor. Se não eu, quem te falaria a mais pura verdade?"


Eu te amo. Acredita?

Meu Herói

Heróis nunca foram indestrutíveis. Heróis se machucam,às vezes falham e nem sempre adquirem resultados bons em suas tentativas. Os heróis choram, caem, se cortam. Heróis são mais frágeis do que as outras pessoas. Os heróis são aqueles que conseguem tirar-lhe um sorriso mesmo quando a única coisa que te resta são lágrimas. Eles conseguem tirar-lhe do escuro, cicatrizar suas feridas e fazer-te sentir-se bem. Embora todas as qualidades e expectativas esperadas de um Herói, eles não são perfeitos. A verdade é que Heróis são meros humanos, apenas com a capacidade de tornar qualquer ambiente agradável e contagiar-te com seu brilho maravilhosamente abundante. Alguém mais além de mim conhece um Herói?
-

Esse texto foi feito para o meu irmão Pedro, uma das pessoas mais especiais da minha vida!

domingo, 5 de setembro de 2010

A Penumbra

Corria atrás de sua penumbra tentando alcançá-la.
- Não há de conseguir menino, não há! - dizia a mãe em um tom de certeza.
Olhava para ela desprezando-a, voltava a andar atrás de sua penumbra.
-Já disse-lhe. Se machucares mais uma vez seu joelho menino, não jantarás.
Dessa vez ele nem olhou.
- Haja teimosia, menino! Não conseguirás, ouça-me.
- Deixe-me correr atrás dela, senhora. - disse o menino, ofegante.
O menino ainda tentava correr, e assim ia: circulando, circulando, circulando. De tonto, parou. Olhou para a mãe sentada em um toco de árvore cortada, aspirando o cigarro de palha diante de sua boca rígida.
- Corro, corro.
- Não há de conseguir menino, não há!
- Corro, corro.
- Não há de conseguir menino, não há!
- Corro, corro.
- Não há de conseguir menino, não há!
A penumbra era quem corria agora.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Louco Eleitoral

Quero os certos incertos que meros
Analfabetos sem dor luz nem paz
Quero os loucos poucos certos
Incertos do certo cegos do paladar
Quero o paladar triunfar de outro louco certo
De tão certo e cego morreu sem ar

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Armadilha

Um dia ela viu um menino, tocando violão na movimentada rua principal de sua cidade. Esquálido, pálido, trazia o medo encarnado em suas feições e mãos que, desesperadas, encostavam em cada corda do instrumento. Ao seu lado tinha um chapéu de palha virado para cima. Quando alguém tentava dar-lhe dinheiro, ele parava de tocar de imediato e recusava cada centavo oferecido. Ela pensou consigo: porque tal alto era tão relevante ao menino? Ele parecia ser simples para recusar todos os adornos.
- Não, obrigada moça. - dizia ele convicto.
- Obrigado senhor, não precisa. - dizia mais uma vez.
A dúvida foi corroendo a menina por dentro, até que num ato sem pensar, suas pernas a levaram para perto dele. Ao ver a mão da menina próxima ao chapéu, ele parara de tocar. Quando sua voz ansiosa estava pronta para recitar o recuso, ela disse:
- Por que recusas todo dinheiro? Sei que precisa.
Ele não disse nada e voltou a tocar. Ela tirara do bolso agora uma quantia desconhecida de dinheiro e ameaçou colocá-la no chapéu novamente.
- Raios, já viu que não quero. - disse zangado.
- Eu só queria ajudar. Mas já que recusas esta mão amiga que ofereço, irei-me embora. - disse a menina.
- Não vá, por favor! - disse o menino num choro.
- Vai querer o dinheiro agora? - disse ela, zombando-o.
- Quero alguém para conversar. Deixo o chapéu ao lado para chamar a atenção das pessoas. Todas elas são movidas a boa vontade, mas sinto-me apenas sendo a vontade e não sua parte boa. Dão o dinheiro e vão embora, como se o dinheiro bastasse e fosse melhor que uma velha e simpática música e audaciosas palavras trocadas ao vento. - disse o menino, trazendo um sorriso no rosto. - Não há bem que pague a amizade, nem uma conversa boa e destraída.
Ao dizer isso, o menino voltou a tocar. Agora ela o observava sentada ao seu lado. Terminada a canção, ele pergunta à ela:
- Mas, por sinal, onde você mora?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Felici...o quê?

Me pediram para escrever sobre felicidade. Disseram-me que escrevo coisas tristes em demasio. Mas a felicidade parece-me tão simples, que a tristeza apresenta-se mais convidativa. Vejo a felicidade em coisas comuns do meu cotidiano, como acordar e ver as pessoas que amo ao meu redor. Uma foto que me faz lembrar de algum momento, meus bichos de estimação ou meus livros alinhados em minha estante também me fazem sentir a felicidade. Dizem que fazes sua própria felicidade e eu acredito friamente nisso. A felicidade que tenho ao viver meus dias comuns, é a mesma que me leva a escrever coisas particularmente melancólicas, frias, feias..seja lá qual for a denominação.
Concordo com o conceito de que todos temos que ser felizes e partilhar isso com o próximo. Apesar de escrever essas coisas, eu consigo perfeitamente dividir sentimentos que considero bons. O sarcasmo autoritário gira em torno da felicidade. Você realmente passa a acreditar naquele velho conceito de que só obtem-se felicidade quando alguma meta é alcançada, ou quando você não vê seu bolso gritar freneticamente. A felicidade não se adquire conquistando uma meta. O que deixaste para trás sim, isso é felicidade. Primeiro para alcança-la, você certamente pensou em coisas felizes do qual o motivou a ter aquela meta. As vezes, quando conseguida, nem é tudo aquilo que você pensava ser. Felicidade obtida através do dinheiro vem de uma opinião essencialmente capitalista. Você pode ter todas as jóias do mundo, porém não ter o coração da moça mais bonita da esquina de sua rua, sendo ela o prol de sua alegria. Portanto eis aqui minha opinião sobre a felicidade: ela é boa, mas sem a tristeza ela certamente não existiria.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Linhas Íntimas

Era saudável; mostrava picos de felicidade e tristeza. Motivo não tinha, o drama corroía seu coração. Não sabia muito bem o que queria ser da vida, apenas queria (re)descobrir o mundo e passá-lo adiante em meras linhas desordenadas em seu caderno antigo. Nascera na época errada, dizia sua mãe. Tinha fortes ligações com o passado, embora não tenha o vivido. Criava doenças e as curava, criava decepções e as esquecia na luz da manhã seguinte.
Não gostava das galhofas, nem das maravilhosas histórias sobre querubins. Sua felicidade era encontrar livros e neles grafar seu nome, um nobre jeito áspero de despertar um humilde egoísmo. Põe-os na prateleira, e admira-os como uma das virtudes mais impecáveis do mundo. Por muito não lia-os, mas a certeza de que eram seus dava-lhe todo o sabor de inventar seus heróis e matá-los quando bem entender.
Nunca entendera si mesma, sempre quis que outros a entendessem. A música que tenta seus lábios é a mesma que a leva a sorrir e chorar.
Prosa ou poesia, escrevia os dois. O tapete azul que cobre sua cabeça e a faz sentir-se melhor é o mesmo tapete esquálido que fica em sua sala de estar.
Quem é ela eu não sei, alguém gostaria de apresentar-me?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Soneto da Angústia

Angústia divina,
Que queres de mim?
Servi-lhe todo tempo de sina
As coisas não precisam ser assim.

Angústia divina,
Dei-lhe todo meu amor
Fiz de um abraço a rima
De um espinho à flor.

Angúsita divina,
Por que não bate antes de entrar?
Minha porta estava aberta, mas não a te esperar.

Angústia divina,
O que farei agora?
Se hoje triste sou, feliz fui outrora.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Meros Distúrbios

Meus pensamentos não passam de tentativas errantes de meus meros distúrbios. A vida para mim não passa de uma música sem rima, sem ritmo e harmonia. O tempo passa e juntamente dele, pessoas passam. Passam e não olham para trás.
O horizonte que traduz as nossas vidas, não passam de borrões diante meus óculos de grau. A tentativa de uma vida mais feliz é tão difícil quanto colocar um açaimo em um cão bravo.
Hão de existir aqueles que acreditem na complexidade de viver diante de um sorriso falso em uma quinta-feira. Hão de existir aqueles que rirão e gozarão de experiências que eu nunca imaginei em imaginar. Penso por pouco, e por pouco não penso em nada.
Gasto minhas palavras em melodias tardias, meus passos em caminhos desertos. Me encontro na rua dos sonhos partidos, na esquina de minha alma. Nunca entenderei a ingenuidade de minha mente e o quão longe ela me levará. Escrevo para que parte de mim fique viva, quando pelo mundo meus olhos não chorarem mais.
Os livros pelos quais tanto carrego não passam de meras demonstrações de afeto desvalorizado. E no ápice de minha lucidez perguntarei: "Viver vale a pena ou a pena seria viver?"

domingo, 6 de junho de 2010

O óbito da Solidão

O relógio marcava cinco da manhã, num tique-taque insuportável que entrava na cabeça de Ruby, assim como uma agulha penetra um pano longe de ser maciço. Olhava o quarto, a tintura das paredes e a cor alva da penteadeira, que embutia nela um espelho em formato de coração, um pouco torto para direita.
O retrato na cabeceira era de uma mulher de longos cabelos dourados, que abraçava uma menina com os mesmos cabelos e olhos repulsantes. Ruby não conhecera sua mãe. Seu pai também não. Mas não tinha retratos de seu pai, o que a tornava distante dele, o considerando como um homem qualquer. Porém, aspirava um dia encontrar sua mãe, e nela reconhecer todos os sentimentos que o retrato lhe proporcionava. Uma certeza Ruby tinha: a menina ao lado de sua mãe no retratro era ela mais jovem.
Ruby não sabia quando nem como viera parar no orfanato. Simplesmente um dia acordara lá, e observava as paredes, a penteadeira e o retrato. A irmã Gorethe dissera-lhe que o retrato era de sua mãe. E sobre sua família, era a única e benevolente coisa que sabia.
Ao coçar os olhos, Ruby escuta as batidas na porta de madeira corroídas. Era irmã Alice.
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo as seis em ponto. Vista-se rapariga, não esqueça das saias passadas que colocamos em seu armário. - dizia ela num tom áspero com uma certa quantidade de simpatia.
Ruby levantou-se, colocou as vestes, e olhara seu reflexo no espelho torto da penteadeira. Com uma escova esmeralda, penteava seus cabelos, alisando-os, para ficarem parecidos com os da mãe. Na gaveta ao lado, pegara uma fita púrpura e fez dela um laço perfeito. Desceu para o café.
A escadaria que levava ao refeitório era grande e cansativa, porém o anseio da fome que transbordava em suas veias era definitivamente maior. Mal esperava para as aulas de latim, espanhol, inglês e matemática básica. Ruby se interessava em aprender.
No final do dia, após o banho diário, Ruby ia ao seu quarto e se olhava na penteadeira de novo. Quando iria sair dali? Ficaria para cá todo o sempre? Ruby não sabia, deveras sabia que ficaria lá um bom tempo.
Enquanto deitava na cama, ela sussurava a música que embalava seus sonhos, todas as noites: " Durma bem, durma bem, que mal não tem. A noite está chegando, o dia indo embora, durma menina, que já é hora". Cantava-a até dormir.
Profunda fora a melodia naquela noite. Ruby não parara de a cantar. A luz a clamava alto, a fazendo sussurrar a melodia agora. E olhando para o retrato, seus olhos caíram estagnados, e seu corpo permaneceu em ócio.
O relógio marcava cinco horas da manhã, o tique-taque não incomodava agora. O quarto com suas paredes e cores, a penteadeira alva não receberam olhares curiosos nessa manhã. Irmã Alice batia a porta:
- Ruby, vamos! O café está servido na mesa, e vamos tirá-lo as seis em ponto. Vista-se rapariga, não esqueça as saias. Ruby, anda-lhe!!
Dados trinta minutos, Alice voltara a porta corroída.
- Que passas com tu, rapariga? Hei de chamar a irmã superior, está me escutando Ruby? Está me deixando preoucupada. Ruby, respon..

domingo, 9 de maio de 2010

Anjo Guardião

Mãe,
Se hoje eu pudesse me orgulhar de um feito tão duradouro e brilhante, certamente, me orgulharia da magia crescente de seu amor. Do jeito que me levantas quando caio, do jeito que me ouves quando falo e do jeito que me acudes quando necessitada estou. Mãe, não se magoe por tantas vezes lhe falo mal, não lhe trato com o devido respeito. Mãe, me desculpe por todos os dias não dizer que te amo, que eu preciso de você.
Com você mãe, eu aprendi que as pessoas são como castelos de areia na praia. Apenas quando chegamos perto, vemos as rachaduras e os defeitos. Um vento pode destruí-los, ou o mar quando avança lenta e cruelmente para cima deles. O importante é que sempre exista pessoas que os reconstruam, os deixando firmes sob o solo peneirado. E você sempre foi uma delas pra mim. A cada dia me renovando, construindo-me com as mais perfeitas mãos da bondade. Eu me orgulho de ouvir que a cada dia, pareço-me mais com você. Mãe, eu queria que minhas palavras de fumos antigos pudessem traduzir o significado de seu nome para mim. Agradeço por você me tornar a pessoa que hoje sou, com defeitos e qualidades. Agradeço por todos os dias em que sacrificaste seu cansaço para saciar um mimo meu. Você deixa as pessoas ao seu redor mais felizes, risonhas e amáveis. Você faz o mundo parecer mais sonhador, embora me ensine seu lado ruim. Você é meu anjo guardião, a pessoa com a qual eu posso contar com a certeza de que sempre estará lá, na hora de meus sorrisos e tristezas.
Mãe, de todas as coisas que me comovem a escrever, a ler, a cantar e compor, você é a mais importante delas. Eu escreveria um livro sobre você, cantaria no lugar de uma orquestra inteira só para ouvir seus aplausos, escreveria um milhão de músicas e fazer-las-ia as trilhas sonoras de minha vida. Apesar de não dizer-te todos os dias as mais três simples palavras, as ofereço hoje, e em todos os dias da sua vida: EU TE AMO. Obrigada por ser o que é, obrigada por me fazer quem eu sou, obrigada por fazer a minha vida ter um porquê e um significado. Sei que presentes são mais legais que palavras, mas saiba que as minhas são o meu maior presente. Nunca se esqueça de sorrir, dançar e ser feliz. É assim que eu sempre quero te ver, exatamente do jeito que é. Feliz dia das mães.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Estandarte

Peço-lhe que não ame por demais
Que adore normalmente
Os adornos que a ela pertence
Mas que não sejam banais.

Peço-lhe que não lhe mostre as estrelas
Mas nem que lhe apresente a escuridão
Às vezes pica-lhe com a caldoneira
Do que com a flecha que tens nas mãos.

Guarde a visão do céu para minha chegada
Nele as estrelas estarão entrelaçadas
O refúgio mais duradouro qualquer
E todas as felicidades que vier.

E se não guardares o céu para a visão
Com a mesma flecha que tens nas mãos
O céu dançará nas lágrimas perdidas
De um amor à ela que foi em vão.

domingo, 11 de abril de 2010

O Presságio

As brigas, injúrias e todos os outros xingamentos ocultos me parecem tão convidativos. Me chamam a entrar, clamam meu nome em voz alta. Injetada nas ilusões, caminhando entre as ladrilhas, vejo uma luz branca e equidistante. Dói-me os olhos por tentar vê-la com mais vigor, atenção;
A felicidade parecia escorrer por meus dedos e descer lenta e cruelmente pelo meu braço. Queimava-me por dentro, por mais alva que fosse a luz a poucos quilômetros de mim, tão alva que parecia congelada.
Andava segundo às batidas do meu coração. Descordenadas elas eram, mas pois assim andava. Cada batimento era um fel desagradável e ocioso, turvaram-se meus olhos. Cheguei, por fim, próxima a luz. Sentia meu corpo gelado, ou melhor, não o sentia. O coração por si só parava a cada sussuro tentado por meus lábios. Encontrei-me no chão, jogada meramente de lado.
Tum - meus olhos pesados fecharam ;
Tum - meus movimentos cessaram ;
Tum - meus sussurros acabaram ;
Onde estão os batimentos do meu coração?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

22:05

Dos pensamentos descrentes
Que se enrroscam em mentes
Dos estranhos, loucos inconsequentes
Dos lúcidos, céticos e independentes.

Das sabedorias desconhecidas
Um pássaro, um sabor, uma vida
Não há um que desacredita
Na desventura da vida bonita.

Que céus sejam louvados
Por si só consagrados
E por opção, serem amados.

Que todos os pensamentos descrentes,
Assim sejam benevolentes
Embarquem em navios por todas as mentes.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Oh! Pobre Yuri

Não que o adultério coagisse em sua mente diversas vezes. Margot só queria alguém lhe desse do bom e do melhor, coisa que Yuri, Oh! Pobre Yuri, nunca foi capaz de dar. Casou-se por alguns contos de réis. Yuri não tinha pretendentes, o que preocupava D. Flora, sua mãe. Pagou Margot para casar-se com o filho. " Mas valha-me senhorita, não queres casar-te com meu pequeno? Te ofereço os réis que forem necessários!". Margot não podia recusar dinheiro naquela época e consentiu.
Yuri não era bonito. Tinha a boca desenhada por uma reta e, embora sorrisse com muito vigor, seus dentes desalinhados e hipocorados chamavam os olhares alheios a entrar em riso. Era magro e pálido como pó-de-arroz. Era o meão de outros dois irmãos: Benedito e Francisco.
Nunca dera sorte no amor. Benedito sempre enamorado, noivo... e estava sempre às portas dos bordéis de esquina. Francisco, embora cético, era astuto. Não demorou muito para que, aos lívidos catorze anos de idade, namorasse Belinda.
Yuri era a cruz que Margot carregava. Linda, de lábios carnudos e convidativos, coligia olhares por onde passava. E Yuri, Oh! Pobre Yuri, sempre deixado para trás.
Embora descrente, acreditava que um dia seria feliz. Oh! Pobre Yuri, que ilusão.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um Homem Inigualável

Teve uma infância sofrida, sim. Meu avô, um homem culto, esbelto e muito inteligente. Um homem de respeito, do qual me orgulho muito. Nasceu e morou em Jaú, interior de São Paulo desde os catorze, quinze anos. Morava com seus pais: Júlia e Hugo.
Júlia tinha muitos problemas, batia em vovô sem razão. "Jacyr, venha menino, quero bater em você!". Meu avô, sem escolha, ia apanhar. Apanhava forte, e muitas vezes era acertado por tijolos e outros objetos duros. Júlia não zelava muito o estudo, do qual vovô tinha muito amor. Mandava-0 trabalhar, para receber dinheiro e sustentar a casa. Baniu ele de estudar.
Cansado de sofrer, foi à São Paulo com quinze anos morar com uma prima. Uma casa simples e pequena ela tinha e vovô morava aos fundos. Para entrar em seu quarto, ele tinha de engatinhar. A porta era pequena, e o quarto muito frugal. A vida era sofrida, mas vovô queria muito ter uma formação e ser um homem de respeito.
O desespero corria entre suas veias. O primeiro emprego que encontrou foi dado pelo namorado da prima, de datilógrafo. Passava o dia em seu quarto, escrevendo para o namorado de sua prima. Comia apenas um prato de sopa por dia, e teve de aprender a sustentar seu corpo e mente com isso. Tinha duas blusas, uma calça e duas meias. As lavava constantemente, por não tinha outro trapo com o qual se vestir.
O namorado era um homem de uma índole suspeita, e parou com os pedidos de digitação. Sem datilografar, meu avô passou a não receber dinheiro e nem os pratos de sopa. Não tinha escolha a não ser chorar. Chorava de desespero, tristeza e de fome.
A preocupação, ou o sentimento de culpa, acredito eu, tomou conta do namorado de sua prima. Veio ao quarto de vovô perguntar porquê ele chorava. "Eu choro pois tenho fome", respondeu ele.
Com as datilografias, meu avô conseguiu terminar os estudos e passou a ser delegado de polícia. Casou-se com minha avó, e dela recebeu seu primeiro terno de presente. Com o passar do tempo, a vida se estabilizou. Vovô foi procurar sua mãe, para ajudá-la dando-lhe dinheiro, comida e roupas novas.
A única certeza de que tenho na vida, é que sempre admirarei meu avô. Um homem inigualável e batalhador.

Rosas Escarlates

Homens, cansados de si, tentam encontrar uma saída. Um refúgio qualquer, outro sonho desconstruído, outra alegria de viver. Homens, mas uma vez cansados de si, tentam padecer sozinhos, refazer os estados mais agravantes como o delírio da mente, as mãos de suor trabalhadas e o mais irradiante sussurro.
Dar-lhe-ia felicidade, se permitisse sorrir em dias nublados e de muita lástima. Dar-lhe-ia fortunas amorosas, diamantes remendados e um inaudito amanhecer. No fidedigno, não daria nada. Se rosas que um dia foram escarlates, e hoje assistem do mais encardido e podre estado, o que seria de meus desejos diluídos no mais recente olhar?