Um dia veio-me um homem
Sorridente, prazenteiro, amável.
Perguntou-me sorrateiramente
O que escrevi em meu legado.
Encarando-o respondi,
Que legado nenhum havia aqui
Apenas minhas palavras formadas de um sussurro
Que não valem nem o inteligente, quem dirá o burro.
"O que há em seu legado?"
Insistia o homem feliz
Não há nada que a vida ofereça
Que eu já não fiz.
Desgostosa respondi:
"Meu legado são as palavras
Soltas, confusas, enumeradas
Meu legado é meu coração, nobre passageiro da estação."
"Seu legado triste é"
Repetia o homem na avenida
Enquanto os olhos se abriam
E fechavam a triste janela da vida.
Foi embora resmungando
Me tornei contente, feliz dançando
À marcha do amor odiado
Na avenida jazia o meu legado calado.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Rosa Carioca
Pensem nas crianças
Machucadas assustadas
Pensem nas meninas
Confusas dominadas
Pensem nas mulheres
Sofridas arruinadas
Pensem nos tiros
Como rosas sem cheiro
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa Carioca
A rosa sem pétalas
A rosa mentirosa
Destruída, despedaçada
A rosa baleada
A anti-rosa pacífica
Sem cor nem perfume
Sem rosa sem nada
(Baseado na música "Rosa de Hiroxima" de Vinicius de Moraes)
Machucadas assustadas
Pensem nas meninas
Confusas dominadas
Pensem nas mulheres
Sofridas arruinadas
Pensem nos tiros
Como rosas sem cheiro
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa Carioca
A rosa sem pétalas
A rosa mentirosa
Destruída, despedaçada
A rosa baleada
A anti-rosa pacífica
Sem cor nem perfume
Sem rosa sem nada
(Baseado na música "Rosa de Hiroxima" de Vinicius de Moraes)
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
O Cofre - Parte III
- Sabes que fez errado, não? – indagava Amália,
- Sei. O ciúme tocou-me a alma Amália. Todas aquelas jóias dadas por aqueles homens do bordel. – dizia ele raivoso.
- Mas pertenciam a mim, Francisco. Tu nem sabia o que eu ia fazer com as jóias. Eu ia viajar para estudar, Francisco. Depois que perdi tudo, inclusive o seu amor, me encontrei sem saída. Empobreci, adoeci. – dizia Amália, pela primeira vez chorando.
- Pois então, amada Amália. Eu vendi todas aquelas pedras foscas e horríveis para construir a nossa casa. Essa casa, Amália. Essa cadeira onde sentas, o piso que pisas, o ar que respiras. – dizia ele encantado com as próprias palavras.
- A necessidade de amparo fez com que me procurasse de novo, Francisco. Essa história de amor é uma piada. Não restou nada em seu coração, apenas a luxúria e a avareza. Tu nunca será nada Francisco, nada. Não vale o pão que comes. – disse Amália pegando seu sobretudo e seu chapéu aveludado. – Quer saber? Vou-me indo. Prefiro a chuva à suas mentiras!
- Não faça isso comigo, Amália. Não faça isso comigo. Tu não sabes do que sou capaz Amália, não sabes! – disse ele apertando-a pelos braços.
Os gestos e atitudes de Francisco passaram a ser bem rudes. Segurou-lhe os braços, roubou-lhe um beijo e a batia no rosto.
- Tu que não presta, Amália. Recusou o meu amor, recusou a linda casa que fiz para ti e agora rejeita meus beijos. – disse Francisco, apalpando o bolso da calça social, e tirando dele uma arma. – E sabe, amada Amália..és tão linda, perfeita! Poderíamos ser um casal tão lindo se não fosse esse seu orgulho. Mas terá o que merece, amada Amália. – puxou então o gatilho.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Francisco acertou em cheio seu peito esquerdo. Amália não sentia mais suas pernas, seu tronco, seus braços. A casa, o rosto de Francisco e todo o resto foram tornando-se borrões sem nenhum sentido. Fechou os olhos.
Francisco colocou seu corpo dentro do carro e levou-o até sua casa. Despejou o corpo na cama, e trazia nas mãos a faca que pegara em sua cozinha. Aproveitou o furo do tiro, e cortou o resto de seu peito com a faca. Com muito esforço, quebrou-lhe as costelas até que conseguisse pegar seu coração. Olhou-o chorando.
- Desculpe, amada Amália. –disse chorando.
Francisco arrombou o cofre e despejou o coração de Amália nele.
- Se não pode amar-me, não amará mais ninguém. – disse indo embora, cantarolando uma feliz melodia.
- Sei. O ciúme tocou-me a alma Amália. Todas aquelas jóias dadas por aqueles homens do bordel. – dizia ele raivoso.
- Mas pertenciam a mim, Francisco. Tu nem sabia o que eu ia fazer com as jóias. Eu ia viajar para estudar, Francisco. Depois que perdi tudo, inclusive o seu amor, me encontrei sem saída. Empobreci, adoeci. – dizia Amália, pela primeira vez chorando.
- Pois então, amada Amália. Eu vendi todas aquelas pedras foscas e horríveis para construir a nossa casa. Essa casa, Amália. Essa cadeira onde sentas, o piso que pisas, o ar que respiras. – dizia ele encantado com as próprias palavras.
- A necessidade de amparo fez com que me procurasse de novo, Francisco. Essa história de amor é uma piada. Não restou nada em seu coração, apenas a luxúria e a avareza. Tu nunca será nada Francisco, nada. Não vale o pão que comes. – disse Amália pegando seu sobretudo e seu chapéu aveludado. – Quer saber? Vou-me indo. Prefiro a chuva à suas mentiras!
- Não faça isso comigo, Amália. Não faça isso comigo. Tu não sabes do que sou capaz Amália, não sabes! – disse ele apertando-a pelos braços.
Os gestos e atitudes de Francisco passaram a ser bem rudes. Segurou-lhe os braços, roubou-lhe um beijo e a batia no rosto.
- Tu que não presta, Amália. Recusou o meu amor, recusou a linda casa que fiz para ti e agora rejeita meus beijos. – disse Francisco, apalpando o bolso da calça social, e tirando dele uma arma. – E sabe, amada Amália..és tão linda, perfeita! Poderíamos ser um casal tão lindo se não fosse esse seu orgulho. Mas terá o que merece, amada Amália. – puxou então o gatilho.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Francisco acertou em cheio seu peito esquerdo. Amália não sentia mais suas pernas, seu tronco, seus braços. A casa, o rosto de Francisco e todo o resto foram tornando-se borrões sem nenhum sentido. Fechou os olhos.
Francisco colocou seu corpo dentro do carro e levou-o até sua casa. Despejou o corpo na cama, e trazia nas mãos a faca que pegara em sua cozinha. Aproveitou o furo do tiro, e cortou o resto de seu peito com a faca. Com muito esforço, quebrou-lhe as costelas até que conseguisse pegar seu coração. Olhou-o chorando.
- Desculpe, amada Amália. –disse chorando.
Francisco arrombou o cofre e despejou o coração de Amália nele.
- Se não pode amar-me, não amará mais ninguém. – disse indo embora, cantarolando uma feliz melodia.
O Cofre - Parte II
- Ah, valha-me, Francisco! Lembra-se do meu passado? O que tem ele? E pare de chorar por asneira, trouxe-me aqui para um jantar, sim? Pois então. - disse Amália perturbada com a situação.
- Sim, o jantar. Quase que me esqueço dele. - disse Francisco, enxugando as lágrimas que caíam em sua bochecha e respingavam ao final de seu rosto.
A noite trazia consigo uma demasiada ventania que se concentrava em sopros irritantes e compridos. Isso passou a irritar Amália.
- Pois bem, vejo que a noite nos reservou uma chuva daquelas. Durma em casa, Amália. Tu precisas ver as roupas de cama que comprei para nós, são lindas. - dizia Francisco agora entusiasmado.
- É, vejo que não há outra saída. Mas olhe, não dormiremos na mesma cama. Vou adorar ver as colchas que comprou, mas apenas ver. - retrucou Amália.
- Sim, amada Amália. Entendo que não queria dormir debaixo do teto de meu aposento. Mas deixe-me falar Amália. Se um dia eu errei com você, não foi por querer! Eu juro Amália, nunca quis ter feito aquilo. Não estava sóbrio e..- disse Francisco, sendo interrompido por Amália.
- Essa mesma desculpa de sempre, Francisco? Não há outra que possa me dar? Eu amei-te mais do que qualquer outra coisa. Lembra quando tu adoeceu e eu fiquei lá para cuidar de ti? E de tantas as vezes que resmungou em meus ouvidos e abri meus braços para amparar-te? Tu me trocaste por bordeis, gandaias, raparigas sem classe alguma. - gritava Amália com raiva. - Tu sempre chegava bêbado de suas viradas, eu o colocava em sua cama e partia para minha casa no escuro, no vento. Mas a pior coisa que fizeste, Francisco. foi o episódio do cofre. Só de lembrar, juro-te, minha sede por meter-lhe a mão na fuça é muita.
- Perdão Amália. Eu não vejo outra saída a não ser lamentar. - choramingava Francisco. - E tu, Amália? Como pode referir-se assim às raparigas com quem saí quando terminamos? Sem classe? Faça-me o favor, Amália...todas elas foram suas amigas, companheiras de palco.
- É desse passado que referiu-se, não? Fui sim Francisco, fui prostituta. Se isso o envergonha tanto, por que chamou-me para jantar? Que me esquecesse então! - disse Amália, raivosa. - Mas sabes que logo parei com essa vida quando o conheci, quando eras um homem desamparado e frio, que procurava pelos meus serviços como um cão abandonado!
- Você completou-me, amada Amália. Pude desfrutar da felicidade contigo. - respondeu Francisco, aos prantos.
- Eu também, Francisco. Mas agora vejo o homem que tornou-se: podre de rico e de alma. E conseguiu esse dinheiro todo onde, hein? Diga-me. Quem bancou todo esse luxo? - perguntava Amália.
- O..o co..- gaguejava ele.
- Fale! - gritava Amália.
- O cofre. - respondeu ele aliviado e envergonhado.
- Sim, o jantar. Quase que me esqueço dele. - disse Francisco, enxugando as lágrimas que caíam em sua bochecha e respingavam ao final de seu rosto.
A noite trazia consigo uma demasiada ventania que se concentrava em sopros irritantes e compridos. Isso passou a irritar Amália.
- Pois bem, vejo que a noite nos reservou uma chuva daquelas. Durma em casa, Amália. Tu precisas ver as roupas de cama que comprei para nós, são lindas. - dizia Francisco agora entusiasmado.
- É, vejo que não há outra saída. Mas olhe, não dormiremos na mesma cama. Vou adorar ver as colchas que comprou, mas apenas ver. - retrucou Amália.
- Sim, amada Amália. Entendo que não queria dormir debaixo do teto de meu aposento. Mas deixe-me falar Amália. Se um dia eu errei com você, não foi por querer! Eu juro Amália, nunca quis ter feito aquilo. Não estava sóbrio e..- disse Francisco, sendo interrompido por Amália.
- Essa mesma desculpa de sempre, Francisco? Não há outra que possa me dar? Eu amei-te mais do que qualquer outra coisa. Lembra quando tu adoeceu e eu fiquei lá para cuidar de ti? E de tantas as vezes que resmungou em meus ouvidos e abri meus braços para amparar-te? Tu me trocaste por bordeis, gandaias, raparigas sem classe alguma. - gritava Amália com raiva. - Tu sempre chegava bêbado de suas viradas, eu o colocava em sua cama e partia para minha casa no escuro, no vento. Mas a pior coisa que fizeste, Francisco. foi o episódio do cofre. Só de lembrar, juro-te, minha sede por meter-lhe a mão na fuça é muita.
- Perdão Amália. Eu não vejo outra saída a não ser lamentar. - choramingava Francisco. - E tu, Amália? Como pode referir-se assim às raparigas com quem saí quando terminamos? Sem classe? Faça-me o favor, Amália...todas elas foram suas amigas, companheiras de palco.
- É desse passado que referiu-se, não? Fui sim Francisco, fui prostituta. Se isso o envergonha tanto, por que chamou-me para jantar? Que me esquecesse então! - disse Amália, raivosa. - Mas sabes que logo parei com essa vida quando o conheci, quando eras um homem desamparado e frio, que procurava pelos meus serviços como um cão abandonado!
- Você completou-me, amada Amália. Pude desfrutar da felicidade contigo. - respondeu Francisco, aos prantos.
- Eu também, Francisco. Mas agora vejo o homem que tornou-se: podre de rico e de alma. E conseguiu esse dinheiro todo onde, hein? Diga-me. Quem bancou todo esse luxo? - perguntava Amália.
- O..o co..- gaguejava ele.
- Fale! - gritava Amália.
- O cofre. - respondeu ele aliviado e envergonhado.
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