- Ah, valha-me, Francisco! Lembra-se do meu passado? O que tem ele? E pare de chorar por asneira, trouxe-me aqui para um jantar, sim? Pois então. - disse Amália perturbada com a situação.
- Sim, o jantar. Quase que me esqueço dele. - disse Francisco, enxugando as lágrimas que caíam em sua bochecha e respingavam ao final de seu rosto.
A noite trazia consigo uma demasiada ventania que se concentrava em sopros irritantes e compridos. Isso passou a irritar Amália.
- Pois bem, vejo que a noite nos reservou uma chuva daquelas. Durma em casa, Amália. Tu precisas ver as roupas de cama que comprei para nós, são lindas. - dizia Francisco agora entusiasmado.
- É, vejo que não há outra saída. Mas olhe, não dormiremos na mesma cama. Vou adorar ver as colchas que comprou, mas apenas ver. - retrucou Amália.
- Sim, amada Amália. Entendo que não queria dormir debaixo do teto de meu aposento. Mas deixe-me falar Amália. Se um dia eu errei com você, não foi por querer! Eu juro Amália, nunca quis ter feito aquilo. Não estava sóbrio e..- disse Francisco, sendo interrompido por Amália.
- Essa mesma desculpa de sempre, Francisco? Não há outra que possa me dar? Eu amei-te mais do que qualquer outra coisa. Lembra quando tu adoeceu e eu fiquei lá para cuidar de ti? E de tantas as vezes que resmungou em meus ouvidos e abri meus braços para amparar-te? Tu me trocaste por bordeis, gandaias, raparigas sem classe alguma. - gritava Amália com raiva. - Tu sempre chegava bêbado de suas viradas, eu o colocava em sua cama e partia para minha casa no escuro, no vento. Mas a pior coisa que fizeste, Francisco. foi o episódio do cofre. Só de lembrar, juro-te, minha sede por meter-lhe a mão na fuça é muita.
- Perdão Amália. Eu não vejo outra saída a não ser lamentar. - choramingava Francisco. - E tu, Amália? Como pode referir-se assim às raparigas com quem saí quando terminamos? Sem classe? Faça-me o favor, Amália...todas elas foram suas amigas, companheiras de palco.
- É desse passado que referiu-se, não? Fui sim Francisco, fui prostituta. Se isso o envergonha tanto, por que chamou-me para jantar? Que me esquecesse então! - disse Amália, raivosa. - Mas sabes que logo parei com essa vida quando o conheci, quando eras um homem desamparado e frio, que procurava pelos meus serviços como um cão abandonado!
- Você completou-me, amada Amália. Pude desfrutar da felicidade contigo. - respondeu Francisco, aos prantos.
- Eu também, Francisco. Mas agora vejo o homem que tornou-se: podre de rico e de alma. E conseguiu esse dinheiro todo onde, hein? Diga-me. Quem bancou todo esse luxo? - perguntava Amália.
- O..o co..- gaguejava ele.
- Fale! - gritava Amália.
- O cofre. - respondeu ele aliviado e envergonhado.
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